Uma das perguntas que mais recebo no consultório é se há condições de saúde que impedem a realização da cirurgia plástica. A resposta, na maioria das vezes, é não, desde que tudo esteja tratado e compensado. Algumas doenças exigem uma avaliação mais criteriosa, um preparo adequado e, em alguns casos, o adiamento do procedimento até que o organismo esteja em melhores condições.
Ao longo da minha carreira, aprendi que não existem pacientes “iguais”. Mesmo quando duas pessoas desejam realizar a mesma cirurgia plástica, o planejamento pode ser completamente diferente. Idade, hábitos de vida, alimentação, histórico clínico e a presença de comorbidades influenciam diretamente na condução do tratamento.
Por isso, a consulta pré-operatória vai muito além da escolha da técnica cirúrgica. Ela é o momento de compreender o estado geral de saúde do paciente e identificar fatores que possam interferir na recuperação e na segurança do procedimento.
O que são comorbidades?
Chamamos de comorbidades as doenças ou condições de saúde que coexistem com o motivo principal do tratamento. Entre as mais frequentes na rotina da cirurgia plástica estão diabetes, hipertensão arterial, sobrepeso e obesidade. Aqui, o *tabagismo* e uso de drogas também se comportam como sérios riscos para a cirurgia.
A presença dessas condições não significa, necessariamente, que o paciente não possa ser operado, mas é importante avaliar se elas estão controladas e se o organismo apresenta condições adequadas para enfrentar o procedimento e o período pós-operatório.
Diabetes e cicatrização
Entre as comorbidades que mais exigem atenção está o diabetes. Quando a glicemia permanece elevada por períodos prolongados, o organismo pode apresentar alterações na circulação, na resposta imunológica e nos mecanismos naturais de reparação dos tecidos. Isso pode favorecer uma cicatrização mais lenta e aumentar o risco de infecções e outras complicações. Isto se chama *glicação*, e deve ser tratado. Dela advém uma ampla atividade inflamatória, que atinge todo o organismo.
Pacientes com diabetes, podem sim, realizar uma cirurgia plástica, mas é fundamental que a doença esteja bem controlada para que a cirurgia possa ocorrer com segurança.
Por esse motivo, antes de indicar qualquer procedimento, procuro avaliar exames recentes, o controle glicêmico e, quando necessário, trabalho em conjunto com o endocrinologista ou clínico responsável pelo acompanhamento do paciente, criando as melhores condições possíveis para uma recuperação segura.
Hipertensão também merece atenção
A hipertensão arterial é outra condição bastante comum e quando está controlada, normalmente não impede a realização da cirurgia plástica. No entanto, níveis elevados de pressão arterial podem aumentar o risco de sangramentos e necrose de tecidos durante e após o procedimento.
Por isso, é essencial que o tratamento medicamentoso esteja adequado e que a pressão arterial seja acompanhada tanto no pré quanto no pós-operatório.
Essa integração entre as especialidades faz parte da prática médica responsável.
Sobrepeso e obesidade
Outro tema que merece uma conversa cuidadosa é o sobrepeso e a obesidade.
Nem todo paciente com sobrepeso apresenta contraindicação para uma cirurgia plástica, entretanto, quando existe obesidade, principalmente em graus mais avançados, é comum encontrarmos fatores que aumentam a complexidade do tratamento.
Além das alterações metabólicas, pacientes com obesidade podem apresentar maior risco de trombose, dificuldades respiratórias, infecções, complicações relacionadas à cicatrização e sobrecarga cardiovascular.
Isto quer dizer que para realizar a cirurgia plástica, deve ser realizado um preparo rigoroso, e sempre lembrando, que mesmo assim, tomará mais tempo e cuidados dedicados para o pós operatório.
Indicada no momento adequado e após uma avaliação criteriosa, conforme o caso, oriento primeiro a perda de peso, o acompanhamento nutricional e a estabilização do peso corporal antes de qualquer procedimento cirúrgico. Essa conduta costuma proporcionar melhores condições para a cirurgia e para a recuperação.
A importância dos hábitos de vida
Independentemente da presença de comorbidades, alguns fatores influenciam diretamente a evolução do paciente como alimentação equilibrada, ingestão adequada de proteínas, quanta água de boa qualidade você toma, a prática regular de atividade física, qualidade do sono e suspensão do tabagismo.
Esses cuidados fazem parte do planejamento da cirurgia plástica e não devem ser encarados apenas como recomendações para o período pós-operatório, mas também procuro orientar essas mudanças ainda durante o preparo para a cirurgia, porque acredito que o cuidado começa muito antes da entrada no centro cirúrgico.
Individualizar sempre será o melhor caminho
Uma das maiores evoluções da medicina foi compreender que os protocolos padronizados nem sempre atendem às necessidades de todos os pacientes e na cirurgia plástica, essa individualização é ainda mais importante.
Cada pessoa possui características anatômicas, condições clínicas, expectativas e necessidades próprias e é essa avaliação global que orienta a escolha da técnica, o momento mais adequado para operar e os cuidados necessários antes e depois da cirurgia.
Mais do que realizar um procedimento, entendo a cirurgia plástica como uma jornada, que tem começo, meio e fim. Meu compromisso é oferecer um tratamento seguro, baseado em conhecimento científico e respeitando os limites e as particularidades de cada paciente.
A cirurgia plástica deve ser planejada de forma responsável e quando as comorbidades são identificadas, controladas e acompanhadas de maneira adequada, é possível reduzir riscos, favorecer uma recuperação mais tranquila e proporcionar um cuidado verdadeiramente individualizado.



